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A FÚRIA NATURAL


Fenômeno climático mais assustador do mundo, o El Niño prepara um novo ataque.

É Ele. Entre a pequena e aguerrida comunidade mundial de meteorologistas não há dúvida. Ele é El Niño, O Menino, que periodicamente vira o clima mundial de cabeça para baixo. Durante anos, o El Niño foi assunto restrito ao círculo de meteorologistas e curiosos. Não mais. Agora, o seu nome e os seus sinais secas, inundações, queimadas se espalham pelo planeta. Pelos sinais recolhidos por sensores dos satélites e por uma rede planetária de bóias equipadas com termômetros, as águas do Oceano Pacífico, numa enorme região que vai da costa da América do Sul até quase o litoral da Austrália, estão 5,5 graus Celsius acima da temperatura média normal. É extremamente raro constatar tal variação de temperatura naquele lugar. Quando isso acontece, sabem bem os cientistas, o El Niño está atacando. Pela violência dos primeiros sinais, neste ano Ele está vindo com força total. Há dias, especialistas da ONU reunidos em Genebra, na Suíça, fizeram o alerta oficial: "Este El Niño pode ser o evento climático do século".

Apertem os cintos. Como o pico do fenômeno costuma ocorrer na época do Natal, o El Niño foi batizado no século XVIII por pescadores peruanos, num misto de reverência e temor ao Menino Jesus. Pouca gente ainda acredita em sua origem sagrada, mas não há como fugir de seus tentáculos. Há meses, em quase todas as partes do mundo, episódios estranhos vêm sendo colocados na conta de truques e confusões que o El Niño costuma trazer. O Rio de Janeiro teve, em pleno inverno, o dia mais quente do ano, com 42 graus Celsius em setembro. Paris, na semana passada, sufocou-se numa inversão térmica que, se ainda não pode ser diretamente relacionada ao El Niño, é no mínimo intrigante. O governo francês decretou um rodízio de automóveis para aliviar o fumacê da capital. Yuma, um vilarejo de faroeste no meio do deserto do Arizona, nos Estados Unidos, um lugar tão seco que as casas nem têm teto, foi lambida por um temporal tropical. A secura do ar na Indonésia e na Malásia provocou incêndios florestais, poluiu cidades e enfumaçou o céu de tal forma que até a semana passada havia provocado dois desastres horrendos. Num deles, um jato de passageiros estatelou-se no chão na Indonésia matando todas as 234 pessoas a bordo. Dias mais tarde, dois navios, cegados pela fumaça, trombaram a poucos quilômetros dali, deixando trinta marujos mortos no choque.

"É preciso ter cuidado para não demonizar o El Niño, mas não há como negar que a situação é preocupante, pois o fenômeno ainda é um bebê e só estará inteiramente formado em dezembro", alerta o americano Kevin Trenberth, chefe do Centro Nacional de Pesquisas Atmosféricas, em Boulder, no Colorado. Com base no estrago deixado pelo surgimento de El Niños no passado, é bom acompanhar com carinho o crescimento e o comportamento deste que é gerado nas águas cálidas do Pacífico. O maior El Niño já medido, o de 1982-1983, foi um flagelo. Ele provocou a maior seca da história do Nordeste brasileiro, ao mesmo tempo que afogava Santa Catarina e o Paraná num dilúvio sem precedentes. Centenas de pessoas morreram, milhares ficaram desabrigados e os prejuízos materiais passaram de 1 bilhão de dólares. Em todo o mundo, o El Niño do começo da década passada espetou uma conta de mais de 8 bilhões de dólares. "Os impactos econômicos mundiais de um El Niño forte são perturbadores", diz Trenberth.

Perdão da dívida O historiador francês Fernand Braudel (1902-1985), autor de O Mediterrâneo, mostrou que os fatores climáticos pesam mais do que se imagina e que a cabeça dos governantes se equilibra muito mais precariamente sobre os ombros em épocas de cataclismos. Ele estudou especialmente a chamada "Pequena Idade do Gelo", um período de invernos atrozes que fustigou a Europa entre 1500 e 1850, destruindo colheitas, espalhando fome e miséria. Segundo Braudel, o reinado de Luís XVI teria chance de não ter sucumbido à Revolução de 1789 caso a França vivesse uma época de bonança climática. O atual El Niño não chega a ser uma Idade do Gelo, mas traz inquietações econômicas.

O Banco Mundial anunciou na semana passada que separou 100 milhões de dólares para ajudar os países mais atingidos por secas e inundações provocadas pelo El Niño neste ano. Os técnicos estão preocupados com turbulências políticas no sul da África. Phyllis Pomerantz, diretor do BID, defendeu o perdão de 80% da dívida externa de 5,5 bilhões de dólares de Moçambique. "As previsões do El Niño somadas às condições atuais de Moçambique podem liquidar o país", disse Pomerantz.

Com exceção do Caribe, que se livra da temporada de furacões, para o resto do mundo um El Niño forte é um flagelo. O economista Francisco de Assis, do Banco Marka, do Rio de Janeiro, vem declarando que considera o El Niño a maior ameaça atual ao equilíbrio da economia brasileira. É um argumento de força razoável. Em primeiro lugar, o preço baixo dos alimentos é que vem puxando a inflação do real para a casa do zero. E, como se sabe, o primeiro efeito econômico de secas e enchentes é o aumento do preço dos alimentos. Na quebra da safra brasileira provocada pelo El Niño de 1983, os preços agrícolas subiram 40% em poucas semanas. Em segundo, as maiores culturas brasileiras de exportação, como o café, a laranja, a soja e o cacau, podem sofrer com as inundações, as secas prolongadas e os problemas de infra-estrutura que um El Niño poderoso costuma trazer. O Peru vivia uma situação premonitória, na semana passada, quando chuvas torrenciais fecharam o porto de Talara, paralisando indefinidamente as importações de petróleo. Fora alguns projetos tramitando no Senado, o Brasil não tem um plano nacional para se prevenir contra as agruras de um El Niño cruel. É bom começar a mostrar serviço nessa área.

Até o aparecimento do super-El Niño do começo dos anos 80, os pesquisadores consideravam o fenômeno do súbito aquecimento das águas do Pacífico apenas um laboratório privilegiado para estudar as interações climáticas periódicas entre o mar e a atmosfera. Depois da onda de secas, inundações, epidemias, naufrágios e tormentas atribuídas a Ele, prevê-lo com a maior antecedência possível passou a ser vital para a economia. Sem nenhum aviso prévio sobre o El Niño de 1987, 75% da produção de grãos do Ceará foi perdida. Cinco anos mais tarde, o governo cearense foi alertado com meses de antecedência, os agricultores anteciparam o plantio e, como resultado, a seca trazida pelo El Niño de 1991-1992 ceifou apenas 18% da plantação. Neste ano, antes que seus piores efeitos se façam sentir, ele já mexeu no bolso dos brasileiros (veja quadro).

Bóias gigantescas "Decifrar a lógica do El Niño hoje é um desafio para a ciência e será um alívio para as regiões que sofrem com seus humores", diz Candace Gudmundson, climatologista da Universidade George Washington. O super-El Niño de 1982-1983 deu um susto nos pesquisadores. Foi um frango histórico no jogo de prever o tempo. Desde então antecipar seus sinais tornou-se uma obsessão. Climatologistas americanos e australianos competem com brasileiros, peruanos e chilenos pela primazia de avistar a fera. Neste ano, o primeiro alerta veio de Cachoeira Paulista, no interior de São Paulo, onde funciona o Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos, CPTEC. Pesquisadores do CPTEC, chefiado pelo meteorologista Carlos Nobre, emitiram um boletim no dia 9 de junho dando conta de que, com base na leitura de dados dos satélites meteorológicos, o ovo da serpente do Pacífico emitia sinais de vida. Dias depois, pesquisadores americanos do TAO, organismo internacional que faz a telemetria dos termômetros grudados em 69 gigantescas bóias espalhadas pela faixa tropical dos oceanos, confirmaram a anomalia. Era das grandes. "Ficamos boquiabertos. Os dados davam conta de que este El Niño que está cozinhando pode ser o maior do século", conta Michael McPhaden, diretor do TAO.

Modelagem dinâmica Vernon Kousky, meteorologista do NWSCPC, o centro de previsões meteorológicas do governo americano, situado em Camp Springs, nas cercanias de Washington, é um veterano caçador de El Niño. Ele foi apresentado ao fenômeno há quinze anos, quando trabalhava no Instituto de Pesquisas Espaciais, o Inpe, de São José dos Campos, interior de São Paulo. Kousky concorda que o atual aquecimento das águas do Pacífico começou com uma energia só vista no devastador El Niño de 1982-1983. "Batemos agora numa temperatura superficial de 29,5 graus Celsius.

Em poucos lugares do mundo, apenas em raríssimas circunstâncias a água do oceano atinge temperaturas tão altas", disse Kousky a VEJA. "Podemos, portanto, esperar um El Niño tão perturbador quanto o do começo da década passada, mas não há razão ainda para acreditar que seja mais forte." Kousky alerta para o fato de que mesmo que os dados coletados no mar mostrem que se estão armando as condições materiais para uma revolução climática de proporções planetárias, é cedo para afirmar como ela efetivamente acontecerá. "Não podemos prever agora qual será a magnitude da resposta atmosférica ao aquecimento do Pacífico ao longo dos próximos meses", diz Kousky. "Os impactos globais, então, são ainda mais difíceis de ser antecipados."

Saber no começo de junho as feições de um fenômeno de grandes proporções que só a partir de dezembro trará conseqüências potencialmente graves para milhões de pessoas já é uma vitória significativa para os meteorologistas. A rigor, eles não podem sequer afirmar com certeza, numa quarta-feira, se vai dar praia no fim de semana. Previsão meteorológica com mais de 48 horas de antecedência é ainda uma ciência que engatinha. Para tentar entender o impacto do El Niño, os cientistas utilizam dois tipos de análise. Uma, tradicional, é a simples e boa estatística. A outra, mais moderna, é chamada de modelagem dinâmica. A primeira se baseia na comparação pura e simples de dados históricos arquivados ao longo de décadas de observação. Foi uma análise dessa natureza que deu ao meteorologista inglês Gilbert Walker, nos anos 20, a primeira pista científica da existência do El Niño. Walker observou que sempre que chovia muito na Índia, onde ele mantinha seu laboratório, a Austrália experimentava um período de seca. Ele chamou essa gangorra de "Oscilação Sul". Sem saber, Walker flagrou a primeira "teleconexão", termo com que os meteorologistas de hoje definem a relação aparente entre fenômenos atmosféricos distantes. As teleconexões explicam o fato de o El Niño se fazer sentir em lugares tão distintos quanto o Nordeste brasileiro, o oeste dos Estados Unidos e a Malásia.

Cenários virtuais Até bem pouco tempo atrás, a comparação estatística era a única arma da ciência para prever o impacto de fenômenos como o El Niño. Só recentemente entrou em ação a modelagem, que utiliza computadores poderosos para criar complexos cenários virtuais de circulação das correntes marítimas e de ventos. "Esses modelos computacionais estão se tornando cada vez mais ricos em dados e, portanto, mais precisos", explica Kousky. "Graças à modelagem podemos, com alto grau de certeza, afirmar com nove meses de antecedência quais serão os impactos mais gerais de um El Niño poderoso." A modelagem permitiu entender com mais detalhes como as correntes marítimas influenciam o regime de ventos superficiais e, por intermédio deles, as correntes da alta atmosfera. Essa relação é o fenômeno mais significativo da máquina climática planetária. Quando os cientistas conseguirem entender, em sua totalidade, como uma mancha de calor na água do mar afeta as correntes de vento, eles terão decifrado o enigma da biosfera.

Briga doméstica Com todo esse arsenal teórico, o clima do planeta é ainda uma caixa-preta para os pesquisadores. Os cientistas sabem infinitamente menos sobre o clima do que sobre o funcionamento de outros sistemas aparentemente mais complexos como, por exemplo, a circulação do sangue no corpo humano ou até mesmo a caldeira atômica que gera a luz das estrelas. "A melhor comparação é a de alguém que vê um motor funcionando, conhece suas peças mas é incapaz de saber como elas se encaixam", diz Gudmundson. Pior. Não sabe sequer em que ordem montar as peças. No caso do El Niño, quem dá o pontapé inicial no jogo? É o mar ou são os ventos? Ninguém sabe ao certo. Talvez nunca se saiba.

"O que ocorre ali é mais ou menos o que se passa quando uma conversa se transforma numa discussão agressiva", explica Gudmundson, com graça e originalidade. "A água do mar e os ventos estabelecem no meio do Oceano Pacífico um diálogo constante em que a temperatura é o idioma comum.

O fato é que esse diálogo pode se ir tornando cada vez mais intenso, de modo que os interlocutores emitam mensagens cada vez mais fortes.

As perturbações de lado a lado se potencializam e se amplificam até que, como num bate-boca entre marido e mulher, em que nunca se sabe exatamente quem estourou primeiro, o sistema entra em total desequilíbrio." Pelo que Ele anda aprontando pelo mundo nos últimos dias, a briga já começou.