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A missão abreviada A figura de Antônio Conselheiro
Carnificina em Belo Monte Conselheiro visto como patriarca sertanejo
O Republicano que virou escritor Cronologia
Belo Monte foi engolida pelo açude

 

CANUDOS 100 ANOS

 

A chamada guerra de Canudos terminou no dia 5 de outubro de 1897. Em um ano de combates, morreram cerca de 15 mil pessoas, 10 mil entre os moradores do arraial e de seus arredores e cerca de 5 mil soldados.

O militar, engenheiro e depois escritor Euclides da Cunha recebeu do jornal O Estado de S. Paulo, para o qual colaborava há muito, o convite para ser correspondente no cenário do conflito, chegando à frente de batalha a 7 de agosto de 1897. Ali, ele se tornaria o principal espectador do embate e teria suas convicções republicanas seriamente abaladas, retirando da experiência o estarrecedor relato que se converteria em uma série de artigos para o Estado e, mais tarde, no clássico da literatura nacional "Os Sertões".

Desde julho de 1897, uma campanha do governo central tentava sufocar o movimento deflagrado em Canudos. Naquele vilarejo do sertão baiano, encravado às margens do rio Vaza-Barris, o messiânico Antônio Conselheiro exortava o povo a resistir à República e, com o auxílio dos povoados vizinhos, enfrentava as tropas do exército brasileiro à base de emboscadas e pregações religiosas. O resultado foi uma tragédia sem precedentes em nossa história.

As razões do conflito são discutidas até hoje. Tema de teses universitárias e documentários, do extenso trabalho do escritor peruano Mario Vargas Llosa - "A Guerra do Fim do Mundo" - e da pesquisa histórica "Canudos, O Povo da Terra", de Marco Antonio Villa, entre outros livros, de gravuras de artistas plásticos, como Aldemir Martins, Poty e Harry Elsas, de um samba-enredo, de um CD do compositor baiano Gereba, e agora do filme de Sérgio Rezende, com José Wilker, Canudos persiste como um episódio ímpar na história do País.

 A missão abreviada

Antônio Conselheiro conservava na cabeceira o livro "A Missão Abreviada", uma espécie de guia para pregações, indicado para "despertar os descuidados e converter os pecadores". Na capa, o exemplar traz a recomendação: "Este livro é destinado a fazer oração e instrução ao povo, sendo uma "obra utilíssima" para os párocos, capelães ou qualquer sacerdote que deseja salvar almas e finalmente qualquer pessoa que faz oração pública".

O líder religioso Antônio Vicente Mendes Maciel era conhecido também como Antônio dos Mares, Santo Antônio Aparecido, Santo Conselheiro e Bom Jesus Conselheiro. A denominação que tornou-se mais popular foi Antônio Conselheiro, mas ele preferia ser chamado de peregrino.

A auto-conferida missão do peregrino foi abreviada pelo massacre de Canudos. Após quatro meses de guerra, em 1897, tropas federais venceram os conselheiristas, degolaram jagunços e beatos e apagaram de Belo Monte o que julgavam uma ameaça à recém-proclamada república brasileira.

Conselheiro nasceu em 1830, em Quixeramobim, no Ceará, e morreu em Canudos no dia 22 de setembro de 1897. Segundo alguns historiadores, vitimado por uma prosaica diarréia.

De acordo com outros, do agravamento de uma ferida provocada pelo estilhaço de uma granada. Sua atuação incomum junto aos sertanejos levou o governo a enviar a cabeça de Conselheiro para análise, um após a sua morte. Um legista constatou que seu crânio era normal, desmentindo a versão de que o messianismo do líder se devesse a alguma degenerescência cerebral.

Caixeiro viajante - Com a morte da mãe aos seis anos de idade, Antônio Vicente vai para um colégio interno, onde aprende francês e latim. Aos 25 anos, morre seu pai, e ele torna-se caixeiro viajante, assumindo o controle do estabelecimento comercial da família. Porém, sem tino para os negócios, é obrigado a hipotecar a casa para pagar dívidas. Em 1857, aos 27 anos, casa-se com sua prima Brasiliana Laurentina de Lima. Meses depois, fracassa definitivamente no comércio, vende a casa onde mora e abandona a cidade.

A seca no Nordeste não deixa muitas alternativas e Antônio Vicente instala-se com a mulher na fazenda Tigre, próxima de Quixeramobim. Cria uma pequena escola e leciona Português e Matemática. Em pouco tempo volta a ser caixeiro viajante, em Tamboril, mas o estabalecimento não resiste à crise e fecha meses depois.

Infidelidade - Quando nasce seu primeiro filho, passa a trabalhar como rábula, espécie de advogado que ajuda os pobres em causas judiciais. Após o nascimento do segundo filho, separa-se da mulher, depois que descobre sua infidelidade. Uma versão difundida pelos republicanos é que a separação teria tornado Antônio Conselheiro fanático e louco.

Aos 31 anos, passa a viver com Joana Imaginária, artesã que produz imagens de santos, com quem tem um filho.

Em 1871, aos 41 anos, endividado e sem emprego fixo, é acionado judicialmente e condenado a entregar para leilão seus bens (duas éguas, quatro potros, um novilho, um bezerro, um relógio de prata, uma corrente de ouro, um colete, um chapéu e um paletó). A dívida foi quitada e, sem nada, deixou o Ceará.

Até 1874, não há notícias confiáveis sobre o paradeiro de Antônio Vicente. Nesse ano, o jornal O Rabudo registra sua chegada à Bahia, já com a imagem que tornou-se mais conhecida, trajando o camisolão azul, pés descalços, barba e cabelos longos. Tem sempre à mão, além de "A Missão Abreviada", "Horas Marianas". Passa então a percorrer o sertão baiano, fazendo pregações. Dezenas de pessoas começam a segui-lo.

O peregrino chega a Monte Santo em 1893 e batiza o povoado com o nome de Belo Monte. Em pouco tempo, torna-se a localidade baiana com a maior população, depois de Salvador, com 25 mil habitantes. Vive de doações. "Chamava-se Antônio e o povo o denominava o Conselheiro. Passou por Sergipe, onde fez adeptos. Pedia esmolas e só aceitava o que supunha necessário para sua subsistência, no que divergia de nossos mendigos vulgares", escreveu o promotor público Sílvio Romero, da estância de Sergipe, citado pelo historiador Marco Antonio Villa no livro "Canudos, o Povo da Terra".

Conflito - Seguidores de Conselheiro na Bahia, cujo número aumentava a cada dia, rebelam-se contra os impostos municipais, despedaçando tábuas onde figuravam os valores dos tributos. Esse episódio ocorrido em maio de 1893, em Masseté, é visto por muitos historiadores como gerador do espírito que tomou conta dos conselheiristas no conflito de Canudos. Nessa ocasião, os beatos enfrentam e vencem um destacamento da polícia baiana. A carnificina em Belo Monte

 Carnificina em Belo Monte

A guerra de Canudos começa com o envio da primeira expedição a Belo Monte, composta de 120 soldados e comandada pelo tenente Manuel da Silva Pires Ferreira. No lugarejo chamado Uauá, morrem 80 pessoas e outras dezenas ficam feridas, na batalha travada entre a polícia da Bahia e os seguidores de Conselheiro, que saem vitoriosos. Em janeiro de 1897, o conflito toma proporções nacionais.

A segunda expedição contra os aliados de Conselheiro organizada pelo governo federal é comandada pelo major Febrônio de Brito e conta com com 625 soldados, vindos de Alagoas, Sergipe e da Bahia. A batalha acaba com poucas baixas, porque o líder recua para evitar o confronto direto.

Conhecido como "corta-cabeças", o coronel Moreira César comanda a terceira expedição, em março de 1897. Ele avança sobre Canudos sem dar tempo às suas tropas para descansar da exaustiva caminhada sob o sol do sertão. Cerca de 1.300 soldados levam armas e munição para meses, mas a derrota é humilhante. Os principais oficiais, entre os quais o próprio comandante, morrem após algumas horas de combate. Canudos fica conhecido entre a população como um reduto monarquista.

O governo federal insiste. Planeja por três meses a quarta expedição contra Canudos, que parte em junho de 1897, liderada pelo general Artur Oscar de Andrade Guimarães, fervoroso republicano. O fotógrafo Flávio de Barros acompanha a missão e registra as imagens mais difundidas do conflito.

Durante quatro meses, os conselheiristas resistem aos ataques das tropas federais, melhor equipadas e com cerca de 10 mil soldados, número muito maior do que o de beatos e jagunços.

Em 5 de outubro, uma verdadeira chacina põe fim à guerra. Soldados federais degolam grande número de sertanejos. A população, que aprovara a luta por temer um levante monarquista, condena a carnificina.

Em 1895, uma missão de frades capuchinos, enviados pelo arcebispo D. Jerônimo, tenta dissolver o povoado de Canudos, sem sucesso. Em dezembro, Antônio Conselheiro passa alguns dias na vila de Bom Conselho (Bahia), para arrecadar recursos para as obras de uma nova igreja. A construção da igreja de Bom Jesus é iniciada no ano seguinte.

Em junho de 1896, Antônio Conselheiro encomenda em Juazeiro madeira que seria usada cobrir a nova igreja de Belo Monte, mas o negociante não faz a entrega, mesmo estando o pedido pago. Espalha-se a notícia de que Conselheiro enviaria jagunços a Juazeiro para buscar a madeira. O juiz de Direito Arlindo Leoni envia um telegrama ao governador da Bahia, Luís Viana, relatando que se instalara uma situação de conflito e pede providências. Tem início a guerra de Canudos.

 O Republicano que virou escritor

Euclides da Cunha (1866-1909) foi militar, sociólogo, engenheiro e jornalista, mas acabou ganhando notoriedade como o escritor de Os Sertões, a obra mais conhecida sobre a guerra de Canudos. Euclides nasceu no dia 20 de janeiro de 1866, em Cantagalo, província do Rio de Janeiro. Aos três anos, perdeu a mãe.

 Morou então em casa de parentes, no Rio, em São Paulo e na Bahia. Cursou a Escola Politécnica e a Escola Militar, mas foi desligado do Exército quando ainda era cadete, por fazer um protesto contra a monarquia diante do ministro da Guerra.

Em 1889, porém, com a proclamação da República, conseguiu reintegrar-se ao Exército. Foi promovido a tenente e casou-se com a filha do general republicano Solon Ribeiro, Ana. Cursou a Escola Superior de Guerra, formou-se em engenharia e trabalhou na Estrada de Ferro Central do Brasil.

Em 1896, por divergências do governo Floriano Peixoto quanto ao tratamento dado a prisioneiros políticos da Revolta da Esquadra (1893), desligou-se definitivamente do Exército. No ano seguinte, interessando-se pela campanha de Canudos, escreveu dois artigos sobre o assunto. Foi enviado pelo Estado para a região de Canudos, para acompanhar o conflito. Encontrou o lugarejo assolado pela fome e pelas privações.

Seus primeiros relatos condenavam a luta "anti-republicana" - conseqüentemente "pró-monarquista" - dos conselheiristas. Depois de algum tempo, porém, começou a mudar de opinião. No dia 26 de agosto de 1897, escreveu ele no Estado: "Ao chegar aqui, e assaltado logo por impressões novas e variadas, perturbadoras de um juízo seguro, acredito, às vezes, que avaliei imperfeitamente a situação."

As convicções republicanas são colocadas em segundo plano, quando o correspondente percebe que a luta travada ali não era uma questão meramente política, mas uma complicada teia de fatores religiosos e sociológicos, que não deixariam de ser obscuros, mesmo cem anos e muitos estudos depois. "O espírito mais robusto e disciplinado esgota-se em conjecturas vãs, nada deduz, oscila indefinidamente, intermitente, num agitar inútil de dúvidas, entre conclusões opostas, do desânimo completo à esperança mais alta", atormenta-se.

Cinco anos depois da volta para São Paulo, Euclides da Cunha foi morar em São José do Rio Pardo, onde se notabilizou pela reconstrução de uma ponte, e em 1902 reorganizou suas memórias de Canudos em "Os Sertões".

Por volta de 1907, Euclides começava a mostrar sintomas de tuberculose, ao mesmo tempo em que descobria que estava sendo traído pela mulher com o jovem tenente Dilermando de Assis, que hospedara. A 15 de agosto de 1909 o escritor foi morto a tiros em um confronto com Dilermando. Antes de morrer, ainda balbuciou um perdão para seu matador, que, anos mais tarde, sempre em legítima defesa, mataria um filhos de Euclides em um duelo a bala.

O professor Roberto Ventura, em sua biografia de Euclides da Cunha, define: "Em Euclides, tivemos um militar e um republicano desiludidos e um escritor notável." Ele acredita, porém que Os Sertões foi elevado à categoria clássico mais por suas qualidades sociológicas do que literárias. "O que fez com que Os Sertões prevalecesse sobre outros relatos a ele contemporâneos, como o do jornalista Manuel Benício, enviado a Canudos pelo Jornal do Comércio, é o fato de ele ter conseguido integrar a guerra a uma interpretação histórico-cultural extremamente complexa no Brasil", escreve. "Canudos se tornou, com a interpretação de Euclides, o símbolo de um processo de modernização que se dá através de violentos choques culturais e políticos. Sem isso, ela seria mais uma comunidade ou um movimento messiânico massacrado e dizimado por tropas do governo", analisa o biógrafo.

 Belo Monte foi engolida pelo açude

A estiagem fez submergir das águas barrentas do Açude de Cocorobó restos de construções da velha Belo Monte, a primeira Canudos. Mas ainda permanece submersa a maior parte do lugarejo que assistiu à guerra.

Belo Monte, ou Canudos, chegou a ser a segunda maior cidade da Bahia, com 5.200 casas e 25 mil habitantes, perdendo apenas para Salvador. Derrubada pelo Exército, ressuscitou depois com apenas 60 casas e, no auge do regime militar, em 1968, foi engolida pelo açude.

Em 21 de novembro de 1896, na cidade de Uauá, no sertão baiano, começou a maior guerra civil do interior brasileiro, que deixou mais de 15 mil mortos em um ano de combates e quatro grandes batalhas: a Guerra de Canudos.

Uma patrulha avançada do ainda incipiente Exército republicano brasileiro avançou em direção ao sertão, na tentativa de dar "uma coça" nos sertanejos partidários do líder religioso Antônio Conselheiro, a pedido de um juiz de Juazeiro. Foram emboscados em Uauá na tarde do dia 21. Morreram mais sertanejos do que soldados: 70 jagunços e 8 soldados.

A cidade de Uauá, que ainda existe, antecipou um ritual simbólico para marcar a data. Em novembro de 1996, os moradores rezaram uma missa no local do combate e Oleone Coelho Fontes, autor do livro O Corta-Cabeças, sobre um dos personagens-chave da guerra, o coronel Moreira César, fez uma palestra na igreja.

 A figura de Antônio Conselheiro

Nos estudos suscitados pelo primeiro centenário do arrasamento de Canudos ressurge a figura de Antônio Vicente Mendes Maciel, geralmente conhecido como Antônio Conselheiro, como um desafiante enigma. As inquietantes perguntas sobre a sua real personalidade vêm de longe, desde a palavra candente de Rui Barbosa condenando, na época, seus poderosos adversários nas hierarquias da Igreja e do Estado, no que foi acompanhado por seu grande contendor na Bahia, o escritor e deputado federal César Zama, para quem "a Guerra de Canudos foi o requinte da perversidade humana". Nem faltou, enquanto se desenrolava o monstruoso drama, o protesto de Machado de Assis, em crônica datada de 31 de janeiro de 1897, "contra a perseguição que se está fazendo à gente de Antônio Conselheiro", indagando da natureza do "vínculo moral e fortíssimo" que a prendia a seu líder.

Não obstante essas vozes insuspeitas e de incontestável prestígio, o que prevalece na opinião pública é a sua imagem como a de um fanático e insano, consoante o retratou Euclides da Cunha, vítima do cientificismo naturalista então dominante, ao qual se vinculou até o concurso para a cadeira de Lógica do Colégio Pedro II, quando se inclinou para a posição mais comedida do neopositivismo.

A prova cabal do desmedido apego de Euclides às conclusões inconsistentes da frenologia do fim do século passado, endeusadas por Maudsley e Lombroso, é a sua derradeira afirmação, em Os Sertões, ao referir-se ao crânio de Antônio Conselheiro, decepado "por uma faca jeitosamente brandida".

"Que a ciência dissesse a última palavra", proclama ele à guisa de conclusão. "Ali estavam, no relevo de convulsões expressivas as linhas essenciais do crime e da loucura."

Ninguém mais do que eu admira a obra de Euclides da Cunha, um dos pilares fundamentais de nossa cultura, mas é impossível não reconhecer que ele estava dominado por inegável prevenção, até porque sua cosmovisão agnóstica não era propícia à compreensão serena e objetiva de um dos mais impressionantes episódios de missionarismo na história brasileira, tão característico da vida sertaneja, como fatos posteriores vieram confirmar. Essa prevenção ressalta mesmo no âmbito da visão científica de seu tempo, pois, submetido o crânio do pregador ao exame do maior médico-legista da época, Nina Rodrigues, ele chegou a essas conclusões peremptórias: "O crânio de Antônio Conselheiro não apresenta nenhuma anomalia que denunciasse traços de degenerescência. É, pois, crânio normal."

Quem nos fornece esses dados é o saudoso e eminente colega da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, José Carlos Ataliba Nogueira, em seu livro Antônio Conselheiro e Canudos, publicado em 1974 pela Companhia Editora Nacional, como volume 355 de sua preciosa Brasiliana. Eis aí uma obra sem a qual não é mais admissível dizer algo de plausível sobre o drama de Canudos e sua figura central, causando-me espécie o silêncio que tem descido sobre esse livro, que, no dizer do insígne historiador Américo Jacobine Lacombe, representa uma contribuição fundamental para a revisão dos estereótipos que têm impedido a apreciação isenta da Guerra de Canudos.

Nesse livro, Ataliba Nogueira publica, pela primeira vez, a obra manuscrita de Antônio Conselheiro, a qual pertenceu a Euclides da Cunha, precedendo-a de um estudo introdutivo, no qual, além de oferecer argumentos convincentes contra a tese da insânia e do fanatismo religioso e político atribuídos ao construtor de Belo Monte, analisa as suas prédicas. Com a competência que todos lhe conhecemos no tocante à doutrina da Igreja Católica, declara o mestre paulista que esses escritos de devoção, embora de forma claudicante, não conflitam com as prédicas ortodoxas. Trata-se, concluiu Ataliba, de uma manifestação singela de fé, que "não há de agradar aos céticos e agnósticos".

No que se refere às convicções políticas de Antônio Conselheiro, há em seu manuscrito breve referência à República, condenada por entender que ela visava destruir a religião, por ter expulso dom Pedro II, "que era inocente, não tinha necessidade de sofrer ultrajes no seu maior grau, como diz Santo Tomás", e, outrossim, por ter instaurado o casamento civil, que, a seu ver, ocasiona a nulidade do matrimônio. Não me parece que essas opiniões, aduzidas a favor da monarquia, sejam de per si expressão de fanatismo, assistindo razão a César Zama, quando pondera que era direito dele ser monarquista, "direito sagrado, que ninguém poderia contestar num regime republicano". Não se pode contestar que fanatismo houve em Canudos, por parte dos jagunços e de seu grande guia, mas foi antes expressão de autodefesa de direitos até o sacrifício extremo ("Canudos não se rendeu", comenta Euclides da Cunha. "Exemplo único em toda a história, resistiu até ao esgotamento completo") e não de loucura individual ou coletiva.

Tem-se dito, ainda, que Antônio Conselheiro não conhecia senão a Bíblia, mas essa asserção é absurda, bastando lembrar que se, como está comprovado, ele militou no foro, em Campo Grande e Ipu, como "advogado provisionado", não pode ter deixado de estudar a legislação do País. Na realidade, ele foi um homem de extraordinária versatilidade, pois foi também construtor de templos, açudes e cemitérios, tendo o próprio Euclides reconhecido, em Os Sertões, como assinala Ataliba Nogueira, apontando as páginas, que suas igrejas "são sempre elegantes" e "belíssima" a edificada em Bom Jesus.

De todo o exposto resulta que a efetiva personalidade de Antônio Conselheiro ainda constitui um problema aberto, exigindo maiores indagações, afastado que deve ser o diagnóstico de insânia e fanatismo doentio. A figura de Antônio Conselheiro não se compreende, em suma, sem a missão que ele se atribuía e sem levar em conta a sua sintonia com a religiosidade natural dos homens do sertão, cuja devoção ao aliciante pregador constituía um revide aos cruéis desmandos e privações a que eram submetidos pelos senhores do poder em conflito numa República ainda não consolidada em todo o território nacional.

Quanto ao silêncio de Euclides sobre o manuscrito que lhe foi doado, cumpre lembrar que tal fato ocorreu quando seu espírito estava atormentado pela sua incerta nomeação para o Colégio Pedro II e por tremendos problemas pessoais. Como adverte Ataliba, é possível que nem sequer o tenha lido, mas, penso eu, ainda que o houvesse feito é mais provável que não teria alterado o juízo exarado em Os Sertões sobre os "pobres papéis" encontrados em Canudos, que "registravam as prédicas de Antônio Conselheiro (...) refletindo o turvamento intelectual de um infeliz".

É que Euclides nunca abandonou a sua confiança exclusiva nas ciências positivas, não se considerando propriamente um homem de letras, mesmo após o inesperado e súbito sucesso de sua obra máxima, a qual, como hoje é opinião dominante, não perdura em razão de suas pomposas categorias científicas, mas sim em virtude do que nela é dito, com originalidade e profundidade nunca antes atingidas, sobre a terra e o homem do Brasil, em estilo incomparável. É por isso que digo, em meu livro A Face Oculta de Euclides da Cunha, que, paradoxalmente, o que nele se ocultava era a arte literária, da qual se julgava carecedor, e não a filosofia, como por equívoco foi interpretada a conclusão desse meu livro por um crítico superficial, atribuindo-me erroneamente o propósito de converter em filósofo o autor de Contrastes e Confrontos.

 Conselheiro deve ser visto como patriarca sertanejo

Passados cem anos da destruição de Canudos, é possível vislumbrar os diversos caminhos trilhados por pesquisadores, sempre apaixonados, do complexo fenômeno ocorrido no sertão baiano no fim do século passado. O que se questiona, no entanto, são os pressupostos exegéticos quase sempre iluminados por dois faróis alheios à essência dos fatos que moveram a multidão de adeptos das mensagens do cearense Antônio Conselheiro.

A "presentificação" e a percepção externa, do litoral, perturbam entendimentos íntimos daquele movimento que ainda hoje clama por mais pesquisas. Recentemente, dois livros reacenderam a flama deixada por Maria Isaura P. de Queiroz e Walnice Galvão. Marco Antonio Villa e Robert M. Levine acentuaram a premência de novos estudos feitos no campo da história. Sobretudo, exalta-se a oportunidade de trabalhos que, valorizando Euclides da Cunha, percebam que Canudos merece uma história própria.

Como que para responder a grave pergunta: que República temos?

 Muitos analistas recortam, da percepção ampla de Canudos, um núcleo de problemas políticos destituídos de reflexões sobre o teor religioso do movimento. Decorrência ligeira disso, a partir de fatores externos, defensivos, se constróem narrativas epopéicas que, quase sempre, se esvaziam em polarizações tolas. Como se fosse insípido debate entre Império x República, a história passa a ser contada como se os canudenses fossem militantes de uma oposição impossível e até utópica. Reverso da mesma medalha, os exércitos do governo central estariam apenas atacando o vilarejo - fraco, mas incrivelmente resistente - em busca de uma identidade nacional republicana construída por meio da manipulação da opinião pública.

O fato de ser considerado o fatídico 5 de outubro a data "celebrativa", que a história oficial reconhece como centenário de Canudos, revela a contradição de outra história que seria feita a partir dos argumentos tecidos no interior da comunidade conselheirista. Na mesma medida que isso reforça a visão litorânea, massacra-se o sentido espiritualizado, esperançoso e pacífico daquela colônia. No lugar, consagra-se a atividade bélica, que era a negação perfeita do ideal comunitário. Mesmo sem chegar à definição de uma "guerra santa", a defesa de Canudos é mostrada como luta por um mundo conservador e tacanho.

Ainda que tais fatores sejam plausíveis de justificativas e argumentações, supondo-se uma estrada de mão dupla, valeria a pena aventar os elementos essenciais da adesão interna dos habitantes do formidável arraial. Por certo, miséria e exclusão somaram-se enquanto explicações fundamentais. Insuficientes porém. O que soldou a solidariedade do grupo foram, isso sim, os efeitos da mensagem emanada do carisma religioso do Conselheiro. Uma retórica nutrida em metáforas reinterpretadas evocava o sentido comunitário dos reconstrutores das comunidades bíblicas.

Membros de diferentes camadas sociais, procedentes de várias plagas, conviveram na complexa Canudos afinados nas crenças que pensavam o reordenamento do mundo segundo a revitalização de uma ética moral. Aguardando um novo tempo, a vida comunitária seria uma preparação para a aventura humana em caminho da eternidade amena. Um novo tempo haveria de vir e apenas no ambiente piedoso seria saudável filtrar os males do mundo. Restaurava-se, portanto, a noção bíblica de que os "homens somente se salvariam em conjunto". Ao mesmo tempo, instalava-se o tempo da penitência e da contrição.

Mesmo tendo claro que a existência de escolas na concorrida cidade santa - Canudos contava com cerca de 2 mil casas, distribuídas por cinco bairros e apenas era menor do que Salvador, a capital - e respeitando-se o fato de que havia correio freqüentemente ligando uma parte à outra, sabe-se que a tradição oral era a base comunicativa interna. O calendário religioso e as famosas prédicas do líder catalisavam atenções harmonizando diferenças à medida que propunham um programa de vida comunitária e pia. A idéia salvacionista emblemada na volta do Salvador redimia a noção milenarista de que "haverá um só rebanho e um só pastor". Por ela trabalhavam todos e aí residia a insistência da oratória diária do líder.

Antonio J. Saraiva, em texto sobre o Discurso Engenhoso do padre Antonio Vieira, propõe uma esperta retomada de princípios judaicos inerentes a uma população cristianizada segundo os alcances da transmissão oral.

 Os fiéis católicos brasileiros teriam filtrado, durante a colonização e o Império, por meio da prática de convívio freqüente com os cristãos-novos e com os criptojudeus, alguns princípios "não do judaísmo culto", mas de uma prática que advogava a (re)união direta do povo com o seu Deus. Segundo o modelo do Pentateuco, o Conselheiro seria, mais do que outro dos muitos beatos que andavam pelo interior, uma espécie de patriarca sertanejo. Sua função de líder espiritual revestia- se de características cristalizadas em imagens coerentes com Abrahão ou Moisés.

O tipo de messianismo assumido por Antônio Conselheiro precisa ser considerado como razão vital da comunidade. A relação direta, pouco ou nada institucionalizada, colocava-o em sintonia com os cerca de 100 mil parceiros de jornada. A comunicação era bastante profunda e costurada em pactos dificilmente explicados fora daquela lógica religiosa. Especularmente, a imagem refletida dessa situação, esvaziada de conteúdos espiritualizados, tem servido para mostrar a descristianização da leitura do movimento. Mais do que jagunços reunidos em torno de um dublê de militante político e neurótico, a historiografia em geral sobre Canudos clama por novos estudiosos que, deixando apriorismos, a vejam como resultado de uma profunda experiência religiosa. Sem entendimento da espiritualidade assumida pelos conselheiristas estaremos, uma vez mais, repetindo a tradição presentificadora e externa àquela comunidade. Pior, reduzindo o estudo de Canudos ao que menos significa.

Cronologia

1830 - Em 13 de março, nasce Antônio Vicente Mendes Maciel, em Quixeramobim, Ceará.

1834 - Morre Maria Joaquina, mãe de Antônio Vicente.

1836 - Vicente Mendes Maciel, pai de Antônio, casa-se novamente. O filho queixa-se da maneira como é tratado pela madrasta.

1855 - Com a morte do pai, Antônio Vicente assume seu estabelecimento comercial.

1856 - Morre a madrasta de Antônio Vicente.

1857 - Antônio Vicente casa com uma prima, Brasilina Laurentina de Lima. Por inabilidade nos negócios, deixa o comércio, torna-se professor primário, depois caixeiro, amansador de cavalos e rábula.

Fica sabendo que sua mulher lhe era infiel e separa-se dela.

1871 - Penhora todos os seus bens para pagar dívidas e inicia uma vida nômade pelo Nordeste.

1874 - Começa a fazer pregações na Bahia e em Sergipe.

É seguido por centenas de sertanejos. Fica conhecido como Santo Antônio dos Mares.

1876 - Já conhecido como Antônio Conselheiro, é preso na Bahia, sob suspeita de ter cometido um crime em sua terra natal. Enviado para Quixeramobim, é libertado, pois nenhum delito é imputado a ele no Ceará.

1877 - Volta a pregar no sertão baiano, ganha prestígio. Constrói e reconstrói capelas, muros de cemitérios e tanques d'água.

1882 - O arcebispo de São Salvador da Bahia, D. Luís José dos Santos, ordena que os vigários impeçam as pregações de Bom Jesus Conselheiro, como também é conhecido.

1885 - Antônio Conselheiro conclui as obras da capela de Senhor do Bomfim, em Chorrochó.

1892 - A capela de Bom Jesus é inaugurada.

Os jornais publicam as primeiras notícias das pregações anti-republicanas de Conselheiro.

1893 - Seguidores de Conselheiro na Bahia se rebelam contra impostos municipais, despedaçando tábuas onde figuravam os valores dos tributos.

maio/1893 - Em Masseté, conselheiristas enfrentam e vencem um destacamento da polícia baiana.

junho/1893 - O governador Rodrigues Lima pede ao marechal Floriano Peixoto a ajuda do governo federal para combater os "rebeldes". As tropas enviadas não chegam a enfrentar os conselheiristas.

Antônio Conselheiro instala-se no município de Monte Santo, batizando o lugar de Belo Monte.

1894 - Conselheiro continua sua pregações em Belo Monte, aumentando o número de seguidores.

1895 - Uma missão de frades capuchinos, enviados pelo arcebispo D. Jerônimo, tenta dissolver o povoado de Canudos, sem sucesso.

dezembro/1895 - Antônio Conselheiro passa alguns dias na vila de Bom Conselho (Bahia), para arrecadar recursos para as obras de uma nova igreja.

1896 - É iniciada a construção da igreja de Bom Jesus, para abrigar o número crescente de fiéis que se mudam para Belo Monte.

junho/1896 - Antônio Conselheiro encomenda em Juazeiro madeira que seria usada cobrir a igreja de Belo Monte, mas o negociante não faz a entrega, mesmo estando o pedido pago. Espalha-se a notícia de que Conselheiro enviaria jagunços a Juazeiro para buscar a madeira. O juiz de Direito Arlindo Leoni envia um telegrama ao governador da Bahia, Luís Viana, relatando que se instalara uma situação de conflito e pede providências. É enviada a primeira expedição de soldados a Canudos.

novembro/1896 - No lugarejo chamado Uauá, morrem 80 pessoas e outras dezenas ficam feridas, na batalha travada entre a polícia da Bahia e os seguidores de Conselheiro, que saem vitoriosos.

janeiro/1897 - O conflito toma proporções nacionais. A segunda expedição contra os aliados de Conselheiro é organizada pelo governo federal. Comandada pelo major Febrônio de Brito, a batalha acaba com poucas baixas entre os 625 soldados federais, porque o líder recua para evitar o confronto direto.

março/1897 - O coronel Moreira César comanda a terceira expedição. Cerca de 1.300 soldados são derrotados. Os principais oficiais e o próprio comandante morrem após algumas horas de combate. Canudos fica conhecido entre a população como um reduto monarquista.

junho/1897 - A quarta expedição federal é enviada a Canudos, liderada pelo general Artur Oscar de Andrade Guimarães. Durante quatro meses, os conselheiristas resistem aos ataques das tropas federais, melhor equipadas e em maior número.

setembro/1897 - No dia 22, morre Antônio Conselheiro, de diarréia (ou do agravamento de um ferimento, segundo outra versão).

outubro/1897 - Uma chacina põe fim à guerra de Canudos. Soldados federais degolam grande número de sertanejos.